Cobrir pautas sobre pessoas negras exige olhar no espelho

18 de maio de 2018

Fernanda Bastos com a escritora cubana Teresa Cárdenas

É fácil se prender nas palavras de Fernanda Bastos, telejornalista da TVE RS. Ao longo da conversa que tivemos com ela, lembramos de vários episódios de nossas trajetórias acadêmicas até o desenvolvimento desse projeto e ficamos emocionadas com seus relatos sobre o mercado de trabalho.

Sempre ressaltando que o racismo é um problema estrutural na sociedade brasileira, Fernanda falou sobre as dificuldades que os jornalistas negros enfrentam, criticou a neutralidade pregada pelo jornalismo e apontou caminhos para que a área seja menos preconceituosa.

Quais são as principais dificuldades que jornalistas negros enfrentam no mercado de trabalho?

Geralmente somos entrevistados por pessoas brancas, então precisamos enfrentar pré-julgamentos que elas possam ter sobre o nosso comportamento. Elas olham para a gente e acham que não somos adequados para as vagas por razões que nunca admitiriam como racismo.

Várias pessoas que eu conheço não conseguem nem seus primeiros estágios. Se não tem uma pessoa negra para indicar, elas não podem começar a trabalhar. Esse é um problema muito grave em uma profissão que valoriza tanto a experiência profissional.

Se a gente pensar que os problemas de raça e classe andam juntos, daí a coisa piora. Essas pessoas não têm experiências que são valorizadas e dependem de todo um capital social ao qual não tiveram acesso. Falar várias línguas, ter viajado para muitos lugares, ter feito intercâmbio… Coisas que, financeiramente, são para poucas pessoas no Brasil.

Conseguindo a vaga, tem outros problemas.

Geralmente somos entrevistados por pessoas brancas, então precisamos enfrentar pré-julgamentos que elas possam ter sobre o nosso comportamento.

Existem áreas mais e menos hostis para jornalistas negros? Quais?

Atualmente, a jornalista trabalha na TVE

Em geral, o jornalismo político é bem hostil, porque a gente tem poucas possibilidades de entrevistar pessoas que sejam negras ou convivam com pessoas negras. Temos poucas pessoas não-brancas em cargos de poder.

O jornalista político, por excelência, é um sujeito que não trabalha com a informação oficial. Nenhum deveria trabalhar, mas nessa editoria a notícia é sempre uma tentativa de romper. Não dá para fazer uma matéria dizendo que uma praça foi inaugurada ou revitalizada; é preciso questionar o material ou os gastos, o que exige confronto com as fontes. Em um mundo muito branco, acostumado a ter pessoas negras servindo, gera muita rejeição a gente aparecer para provocar com o objetivo de publicar coisas indesejáveis.

Minha experiência me mostrou que a presença de uma mulher negra cria muita tensão. Passei por tentativas de assédio e de constrangimento porque os políticos não queriam falar.

As mulheres negras são as que mais sofrem com a desigualdade no mercado de trabalho. Quais são as principais dificuldades que elas encontram no campo do jornalismo, em particular?

A mulher negra é tratada como um objeto pela sociedade brasileira e o jornalismo mantém isso. Não é uma área que luta contra esse estereótipo.

No telejornalismo isso tende a piorar, porque a gente tem uma valorização excessiva da aparência das mulheres em detrimento do que elas têm a oferecer em termos de competência.

Então, se a sociedade opera para fazer com que a mulher negra tenha a sua aparência sempre ridicularizada, no telejornalismo é ainda pior, às vezes chegando ao nível da invisibilidade.

O jornalismo tradicional preza por características como objetividade e neutralidade. Nesse contexto, qual é a melhor forma de abordar pautas sobre racismo?

Ela cobriu o Slam Peleia, um evento de poesia promovido na cidade de Porto Alegre

Parece que a narrativa construída pelo jornalismo branco sustenta essa ideia de neutralidade, que dá a entender que os sujeitos que enunciam são o todo e que as pessoas negras, por exemplo, são minoria.

Creio que seja uma obrigação dos jornalistas brancos cobrir pautas ligadas ao movimento negro ou às pessoas negras. Por exemplo, acompanhar a palestra de uma psicóloga negra falando sobre eventuais problemas decorrentes do racismo. Seria um tema enorme para abordar. E por que os repórteres não fazem? Porque, em geral, isso envolve olhar no espelho e reconhecer comportamentos que eles possam ter.

Também temos os valores-notícia, que dizem que essas pautas deveriam ficar restritas a novembro, mês da consciência negra, que é quando se fala disso. Nem quando falta matéria ele recorre a esses assuntos.

Na sua visão, quais são os principais erros que a imprensa tradicional comete ao abordar pautas sobre a população negra e o racismo?

É essa dificuldade mesmo de exercer o ofício de jornalista e ouvir o que as pessoas têm a dizer. Vamos pegar como exemplo a marcha do orgulho crespo. O jornalista constrói todo o lead dele dizendo que “pessoas maravilhosas se reuniram para afirmar sua ancestralidade e beleza”, ignorando o conteúdo político. Ele não problematiza porque essa manifestação acontece. Não coloca dados. Trata do ponto de vista do exótico e noticia como algo que não tem a ver com um problema social.

Ouvir uma pessoa negra e achar que ela fala por todo mundo é outro problema. O ofício do jornalista é buscar uma pluralidade de vozes, falar com as pessoas para saber como elas podem contribuir, sem achar que sabe tudo sobre a pauta.

O ofício do jornalista é buscar uma pluralidade de vozes, falar com as pessoas para saber como elas podem contribuir, sem achar que sabe tudo sobre a pauta.

O que é preciso para o jornalismo ser uma área menos preconceituosa?

O principal seria que as empresas de comunicação contratassem uma quantidade de jornalistas negros proporcional à população do nosso país. Também seria importante que esses profissionais tivessem acesso a cargos de poder dentro das redações.

Se não ocupamos esses espaços, permanece essa invisibilidade e violência. Não podemos achar que há espaço para os negros só porque tem uma repórter negra que dá a previsão do tempo. É preciso ter mais pessoas dentro da redação. Caso contrário, não teremos pautas sendo construídas sobre o racismo estrutural, o genocídio da juventude negra ou o assassinato de pessoas negras em cargos eletivos…

Claro, fico feliz com o sucesso pessoal dos meus colegas. Acho que quanto mais, melhor. Mas temos que seguir com pautas que digam respeito à população. Não pode ser só uma reivindicação para que a gente apareça na frente da câmera, porque isso só é bom individualmente. Temos que pensar que as pessoas não querem se ver lá só como fenótipo.

Fotos: Acervo pessoal

Por: Kamylla Silva

Kamylla tem 28 anos e mora em Florianópolis. É formada em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), onde teve seu primeiro contato com os estudos de gênero. Atualmente, é graduanda de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha com Marketing Digital, elaborando e aplicando estratégias de conteúdo para clientes de todo o Brasil. Gosta de escrever, viajar e brincar com seus gatos.

1 Comentário
  • Lu
    26 de maio de 2018

    Ótima matéria. Concordo totalmente com a entrevistada. Na RBS, só vi uma jornalista negra e as matérias dela são apenas sobre eventos das “comunidades” periféricas ou algum evento cultural.

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