Invisibilidade LGBT nas redações e nas pautas

25 de maio de 2018

Isabella Sander. Foto: Gustavo Roth/Fundação Piratini

Cerca de 61% dos trabalhadores LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais) brasileiros dizem esconder sua orientação sexual ou identidade de gênero. Esse número é da pesquisa Out in the World: Securing LGBT Rights in the Global Marketplace, divulgada no início de 2016 pela organização Center for Talent Innovation.

Pode parecer normal não comentar sobre esses aspectos no ambiente de trabalho, mas isso muitas vezes implica em mudar trejeitos pessoais, como o modo de falar, andar e se vestir; socializar menos com os colegas; e não mencionar parceiros ou levá-los em confraternizações da empresa.

Todos esses receios fazem com que os trabalhadores LGBTs se sintam mais nervosos e tristes no ambiente de trabalho. Entretanto, foi a forma encontrada por muitos deles de evitar constrangimentos, assédios e até mesmo demissão.

Bianca Lopes. Foto: Acervo pessoal

A jornalista Bianca Lopes, que é bissexual, passou bastante tempo omitindo a sua sexualidade. Por ter tido relacionamentos com homens, sempre foi lida pelos colegas como heterossexual e não fez questão de corrigir isso. Até que começou a namorar uma mulher; então, resolveu assumir publicamente, inclusive em redes sociais.

“Teve um dia que uma superior me perguntou o que eu daria de presente para o meu namorado, então a corrigi e disse que era namorada”, lembra Bianca. A partir daí, a atitude dela mudou completamente, até que a jornalista descobriu que ela havia feito uma reunião sem chamá-la para informar aos outros colegas que procurava outra pessoa para ficar em seu lugar.

Bianca apenas teve o seu emprego salvo porque um colega interviu, lembrando que ela não poderia ser demitida por conta de sua sexualidade e que isso acarretaria em problemas para a empresa. Mesmo assim, a jornalista sentiu que era discriminada, precisando provar constantemente que merecia estar no emprego, além de ouvir piadas depreciativas e provocações.

As piadas também fizeram parte da carreira de Juliana Silva*, que trabalhou em um tradicional jornal do Rio Grande do Sul. O teor, porém, era diferente. Juliana é lésbica assumida e conta que isso fazia com que os colegas homens a tratassem como um deles, esperando que achasse graça de piadas machistas e fizesse comentários sobre os corpos de suas colegas mulheres.

Juliana afirma que o tratamento que jornalistas não-heterossexuais recebem na redação depende muito de como eles performam gênero. Ou seja, mulheres lésbicas ou bissexuais que se vestem e se comportam da forma que é socialmente aceita como feminina dificilmente passarão pelas mesmas situações que aquelas que não atendem a esse padrão. O mesmo vale para homens gays, que tendem a ser mais recriminados, caso se comportem ou se vistam de forma considerada “afeminada”.

O tratamento diferenciado não ocorre apenas dentro das redações. Também pode ser difícil lidar com fontes. “A fonte pode se sentir desconfortável conosco. A nossa orientação sexual, em um mundo heteronormativo, pode gerar preconceitos e pré-julgamentos diversos. Por isso, muitos jornalistas optam por nunca tornar pública sua orientação sexual”, lembra a jornalista Isabella Sander.

A letra T

A marginalização das pessoas trans permeia todas as áreas da sociedade, incluindo educação e mercado de trabalho. São poucas as que chegam às universidades ou conseguem emprego formal. Isso se reflete dentro das redações, onde a presença delas é limitada.

Além da violência e do risco de serem expulsos de casa, a dificuldade para utilizar o nome social nas escolas, a proibição do uso de banheiros de acordo com o gênero e a omissão por parte de professores e diretores faz com que muitos trans abandonem a educação formal.

Com essa dificuldade de acesso, a maioria dessas pessoas acaba por trabalhar na prostituição – 90%, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Existem poucas informações sobre a presença delas no mercado formal, pois as poucas que conseguem trabalho com carteira assinada nem sempre têm o nome social registrado.

Entre nossas entrevistadas, nenhuma teve colegas transgêneros na universidade ou nas redações, o que nos fez compreender a dificuldade de encontrar alguma que estivesse disposta a compartilhar suas experiências.

LGBTs como pauta

“A gente vive em uma sociedade desigual. As pessoas não são tratadas da mesma maneira. Então, você não pode deixar de se posicionar sobre certas questões”, afirma Márcia Nunes*, jornalista lésbica e pesquisadora de jornalismo e gênero. “Porque se você quer mudar uma desigualdade, atuar em uma transformação social, o jornalista tem que fazer parte disso. Caso contrário, você defende os direitos de uma minoria que não é social, mas a que está no poder”.

O jornalismo tem um papel social importante, que é questionar valores sociais que não correspondem mais à realidade. Desde o início da formação acadêmica, ouvimos de professores que jornalismo sem pensamento crítico é assessoria de imprensa. Entretanto, existe uma dissonância entre o que é pregado e o que é de fato ensinado na universidade.

Além da falta de um posicionamento claro, o despreparo dos jornalistas é notável quando eles usam termos e pronomes errados, dão enfoque estereotipado e negam voz aos personagens. As entrevistadas apontam que tudo isso é de responsabilidade da academia, que ainda tem dificuldades em abordar as particularidades de temas como gênero e sexualidade.

A necessidade de uma formação mais humanizada, que ensine a tratar as fontes de forma respeitosa, buscar diversos lados de um mesmo assunto e sair do âmbito da informação oficial é perceptível. Assim, preparamos um infográfico com dicas das nossas entrevistadas para abordar pautas que tratem da população LGBT de forma adequada, sem reforçar o senso comum.

*Os nomes marcados com asterisco foram trocados para proteger as identidades das entrevistadas.

Por: Carolina Bernardi

Carolina tem 27 anos, é natural de Porto Alegre e residente de Florianópolis. Estudou Design de Moda no Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) antes de mudar para o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha como freelancer em Gestão de Conteúdo e Marketing Digital (manda jobs). Seus hobbies incluem dançar com gatos, jogar The Sims e viajar.

1 Comentário
  • Lu
    26 de maio de 2018

    Parabéns por abordar um assunto ainda cheio de tabus. Foi bastante instrutivo quanto as dicas.

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