Mulheres inovam no jornalismo

20 de abril de 2018

Cristina Tardáguila é fundadora da Agência Lupa. Foto: Acervo pessoal

O modelo de negócios do jornalismo tradicional passa por uma crise profunda. A possibilidade de consumir informações gratuitamente na internet afasta os leitores dos veículos impressos e compromete as vendas de espaços publicitários. Consequentemente, as empresas reduzem suas operações e demitem seus profissionais.

De acordo com a pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mulheres são maioria entre os profissionais de jornalismo (64%). Considerando que muitas atuam fora da mídia (68,8%), é provável que elas sofram mais com demissões em massa.

Entretanto, a internet também oferece possibilidades para que os meios de comunicação se reinventem e os jornalistas contem histórias de outras formas. Sobrevivem aqueles que se mostram relevantes em um contexto onde qualquer pessoa pode compartilhar informações em primeira mão e pensam em alternativas para financiar os negócios.

Muitas das iniciativas que fazem sucesso hoje foram idealizadas por mulheres jornalistas que passaram por alguns dos principais veículos de comunicação do Brasil antes de perceberem que a internet era um novo campo a ser explorado. Os projetos delas valorizam princípios básicos do jornalismo e reforçam a importância da profissão para a sociedade.

Mas mesmo como empreendedoras, elas ainda precisam enfrentar dificuldades parecidas com as da época em que eram contratadas como repórteres ou editoras em veículos de comunicação tradicionais. Ter a competência questionada em reuniões de negócios ou na rotina de trabalho são situações bastante comuns, por exemplo.

Checagem de fatos

Todos os dias, os profissionais da Agência Lupa se debruçam sobre as notícias mais recentes para identificar informações imprecisas e divulgar dados corretos. Essa técnica é conhecida como checagem de fatos e, embora seja uma premissa básica do trabalho jornalístico, ganhou força nos últimos anos por conta do uso de afirmações e números sem verificação pelos grandes veículos.

A Lupa foi a primeira empresa brasileira a se especializar em checagem de fatos. Seguindo o modelo startup, é financiada pela Editora Alvinegra e hospedada no site da revista Piauí. Ao longo de sua trajetória, também já recebeu repasses financeiros de grandes players do mercado digital para a execução de projetos pontuais, como Google e Facebook.

O plano de negócios da Lupa demonstra como a agência dá retorno financeiro. A principal fonte de renda é a venda de verificações para outros veículos, como Folha de S. Paulo, CBN e Correio Braziliense. O programa LupaEducação também gera receita para a startup com palestras, workshops e treinamentos sobre checagem de informações.

A jornalista Cristina Tardáguila, que trabalhou n’O Globo antes de fundar a agência, acredita que ser mulher pode ser um obstáculo a mais para o empreendedorismo. “Já me vi em situações extremamente desconfortáveis. Tive reuniões com homens em que me trataram como ‘a menina da Lupa’ ou usaram diminutivos para se referir ao meu trabalho”, conta.

Ela também percebe que algumas características historicamente atribuídas ao gênero feminino influenciam na sua forma de conduzir a rotina de trabalho na Lupa.

Jornalismo explicativo

O ponto forte do Nexo Jornal é a interdisciplinaridade de seus três fundadores: Renata Rizzi é engenheira, Paula Miraglia é cientista social e Conrado Corselette é jornalista. A proposta do site é justamente valorizar o conhecimento de especialistas de diversas áreas e experimentar formatos de apresentação para dar contexto a notícias factuais.

A iniciativa do trio trouxe a tendência do jornalismo explicativo para o Brasil. Trata-se de uma abordagem que privilegia a qualidade dos materiais publicados, que costumam ser mais apurados e menos suscetíveis à obsolescência. O objetivo é qualificar o debate público e reafirmar a importância dos veículos de comunicação.

Atualmente, a equipe do Nexo Jornal é formada por mais de 30 profissionais, entre jornalistas, pesquisadores, artistas, programadores e cientistas de dados. A configuração espacial do pequeno escritório em São Paulo é pensada de modo que todos eles possam trocar ideias e participar das etapas que compõem o desenvolvimento de um material.

A criação da empresa foi possível graças ao investimento de seus idealizadores. Ela ainda não dá retorno financeiro aos três, mas isso está de acordo com o plano de negócios que eles elaboraram. Outro ponto que consta no documento é que o site não se financia com a ajuda de publicidade e, portanto, não tem tanto compromisso em gerar cliques.

O objetivo é que os cinco conteúdos gratuitos aos quais os leitores têm acesso façam com que eles se disponham a fazer a assinatura mensal, que custa R$ 12. O plano de negócios do Nexo Jornal ainda prevê outras formas de financiamento, como pacotes de inscrição especiais para instituições acadêmicas e cursos para a área de educação.

Jornalismo de dados

Encontrar assuntos relevantes em bases de dados abertas ao público é o ponto de partida para os profissionais que fazem parte da equipe da Gênero e Número. Comandada pelas jornalistas Giulliana Bianconi e Maria Lutterbach, a startup foi a primeira da América Latina a investir nessa técnica para enriquecer discussões sobre equidade de gênero.

Giulliana Bianconi e Maria Lutterbach comandam a Gênero e Número. Foto: Juliana Chalita

O veículo transforma a precisão dos dados em narrativas com formatos variados. “Nos dispomos a fazer uma ponte entre o nicho ativista e o público geral. Entendemos que existe uma lacuna entre o discurso militante e as pessoas que são sensíveis ao debate, porque elas não entendem as ações e os jargões”, explica Maria.

A organização sobrevive com a ajuda de doações de pessoas jurídicas e físicas. No menu principal do site, há um link onde os leitores são convidados a colaborar com a manutenção das operações que mantêm a Gênero e Número no ar. Aqueles que se interessam podem oferecer qualquer valor a partir de R$ 20 por meio do PagSeguro.

No entanto, a startup busca sustentabilidade para não depender de doações. Recentemente, suas fundadoras passaram por uma consultoria para desenvolver um plano de negócios e identificar os produtos pelos quais o público pode se interessar. Entre as opções estão sistemas de assinaturas, produções de audiovisuais e eventos ligados à educação sobre equidade de gênero.

Aliás, equidade é um aspecto importante nos processos internos da empresa. Mais da metade da equipe é composta por profissionais que se autodeclaram negros ou pardos. “Trabalhar com pessoas que tiveram experiências diferentes permite que os temas sejam olhados de vários ângulos e os conteúdos produzidos fiquem mais ricos”, acredita Maria.

Por: Kamylla Silva

Kamylla tem 28 anos e mora em Florianópolis. É formada em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), onde teve seu primeiro contato com os estudos de gênero. Atualmente, é graduanda de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha com Marketing Digital, elaborando e aplicando estratégias de conteúdo para clientes de todo o Brasil. Gosta de escrever, viajar e brincar com seus gatos.

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