Mulheres jornalistas na liderança

27 de abril de 2018

Francis França trabalha na Deutsche Welle Brasil. Foto: Acervo pessoal

“Eu sempre fui muito metida, sabe? Ia lá e fazia. Quando uma ordem não fazia sentido, questionava; quando achava que um negócio podia ficar melhor, fazia de outra forma”. É assim que Francis França, chefe de redação da Deutsche Welle Brasil, começa a contar como chegou ao cargo.

A Deutsche Welle, empresa pública de comunicação da Alemanha, tem uma forte política de inclusão de mulheres. Segundo França, elas têm prioridade na contratação quando disputam vagas com homens com as mesmas qualificações. Isso faz com que cheguem a mais cargos de chefia dentro do veículo.

No Brasil, a realidade não é a mesma. De acordo com a pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), as mulheres representam 64% dos jornalistas no mercado de trabalho. No entanto, segundo o estudo Mulheres no Jornalismo Brasileiro, conduzido pela Gênero e Número e pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), apenas 25% delas ocupam algum posto de poder.

As que conseguem chegar a posições de liderança, em geral, precisam trabalhar muito mais que os colegas, demonstrar pró-atividade em áreas que não são as delas e manter uma boa relação com os seus superiores. Mesmo assim, muitas – cerca de 39%, segundo a pesquisa da Gênero e Número e da Abraji – se sentem preteridas em relação aos homens no momento de receber uma promoção.

Além da necessidade de demonstrar mais trabalho e capacidade, as mulheres ainda enfrentam nova dificuldades quando chegam em uma posição de poder. Luana*, que foi editora de uma revista voltada para o meio musical, conta que ouviu insinuações de que havia conseguido o cargo por ser bonita ou ter se relacionado com alguém.

Autocrítica exagerada

“Vivemos em uma cultura tão machista que, às vezes, é até difícil perceber se nós precisamos trabalhar o dobro para chegar em posições costumeiramente ocupadas por homens”, conta Débora Lopes, editora da VICE Brasil. “Eu me cobro muito e me questiono todos os dias se desempenho minhas funções com excelência”, completa.

O relato de Débora traz à tona o que pode ser chamado de “Síndrome de Impostora”. O termo, cunhado pelas psicólogas clínicas Pauline R. Clance e Suzanne A. Imes em 1978, se refere a pessoas altamente qualificadas, inteligentes e competentes que duvidam de suas próprias capacidades e têm medo de serem reveladas como fraudes. Esse fenômeno, de acordo com o estudo, ocorre principalmente com mulheres que são bem-sucedidas em suas carreiras.

Francis conta que também se questionava muito ao assumir o cargo de chefe de redação e, mesmo sabendo que fazia um bom trabalho, demorou a desenvolver autoconfiança. Essa situação ela credita, em parte, à resposta que teve em relação à sua autoridade quando chegou ao posto.

Ao passar por um período de transição de repórter para editora-assistente, Luana também observou que os colegas preferiam receber ordens de um editor homem, mesmo que ambos estivessem no mesmo nível hierárquico dentro do veículo.

Já Débora diz não sentir ser tratada de maneira diferente dos editores homens. “Talvez porque eu esteja lá há mais tempo que eles e já tenha conquistado um certo espaço”, conta. Ainda assim, ela reconhece que tem sorte em trabalhar em um local aberto a discutir temas como o machismo. Porém, lembra que, entre todos os editores, é a única mulher.

Liderando mulheres

Mas como as jornalistas se sentem sendo lideradas por mulheres? Para Mafê Souza, que teve várias chefes, o sentimento é misto. Ela conta que o lado bom é a sensação de segurança de que não será assediada sexualmente e poderá falar com mais liberdade. Por outro lado, ela disse já ter sido tratada com extrema grosseria por uma chefe quando ainda era estagiária.

Infelizmente, as jornalistas em posições de liderança podem tratar mal seus funcionários. Muitas acabam assumindo uma postura mais autoritária e impositiva com suas equipes, seja para conseguirem ser ouvidas ou por acreditarem ser necessário para quem ocupa cargos como os delas.

Esse comportamento é mencionado pela pesquisadora Marcia Veiga da Silva em sua dissertação Masculino: o Gênero do Jornalismo. Para ela, atributos considerados masculinos são valorizados em quem ocupa um cargo de chefia, independentemente da pessoa ser homem ou mulher.

Tanto Francis quando Débora dizem ter boas relações com as suas equipes, mas afirmam que passaram a ser mais firmes depois que chegaram aos cargos atuais para serem respeitadas. “Parece que, ao longo da vida, nós, mulheres, desenvolvemos uma força bruta, um instinto de autoproteção pungente. Muitas vezes, eu preciso falar mais alto, sim”, conta Débora.

Outro ponto levantado é a questão da competitividade. Como mencionado anteriormente, são muitas mulheres nas redações e poucas que chegam a cargos de comando, tornando o ambiente de trabalho competitivo tanto para quem já conquistou o seu espaço quanto para quem ainda aguarda uma oportunidade.

Luana sentiu esse espírito competitivo quanto assumiu a editoria e acredita que isso é prejudicial para uma jornalista que chega a uma posição de poder. Para ela, além dos meios de comunicação darem mais oportunidades para as jornalistas, é necessário que as mulheres se apoiem e celebrem as conquistas umas das outras.

*O nome marcado com asterisco foi trocado para proteger a identidade da entrevistada.

Por: Carolina Bernardi

Carolina tem 27 anos, é natural de Porto Alegre e residente de Florianópolis. Estudou Design de Moda no Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) antes de mudar para o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha como freelancer em Gestão de Conteúdo e Marketing Digital (manda jobs). Seus hobbies incluem dançar com gatos, jogar The Sims e viajar.

0 Comentários
Deixe seu comentário