Não deixam elas trabalharem

8 de junho de 2018

Assédio moral e sexual resulta ou agrava problemas como ansiedade e depressão. Foto: Soragrit Wongsa/Unsplah

É impossível falar sobre mulheres no mercado de trabalho sem mencionar assédio. Seja moral ou sexual, ele permeia todas as esferas da sociedade e atinge profissionais de todas as etnias, orientações sexuais e classes sociais. Não é à toa que movimentos como Chega de Fiu Fiu, Me Too e #DeixaElaTrabalhar ganharam atenção nos últimos anos.

Este último foi criado por mulheres que trabalham com jornalismo esportivo e sofreram diversos tipos de assédio por parte de fontes, colegas de trabalho e, principalmente, do público. Lançado em 21 de março nas redes sociais, o movimento abriu discussões e repercutiu no mundo todo, ganhando apoio de diversas jornalistas estrangeiras que se identificaram com a causa.

Segundo a pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro, realizada em 2017 pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela Gênero e Número, a maioria das mulheres jornalistas já sofreu ou presenciou assédio moral e/ou sexual no exercício da profissão. As situações vão desde cantadas ou comentários indesejados até casos mais graves, envolvendo abuso físico, humilhações públicas, ameaças e danos à carreira.

Julia Esteves* foi assediada por um colega de um jornal onde trabalhou. “Ele vivia dando em cima e chamando para sair. Puxava conversa no WhatsApp, sempre com conotação sexual clara, me chamando para transar e dizendo que tinha tesão em mim”, lembra. Ela, que era estagiária na época, apenas ignorava os avanços, com medo de ser demitida caso denunciasse.

Algum tempo depois, Julia decidiu buscar uma vaga de emprego na mesma redação e os assédios recomeçaram. “Ele continuou dando em cima de mim, de forma como se pudesse me oferecer alguma coisa e eu não pudesse tratá-lo mal por isso”, conta.

Sem aguentar mais, ela chamou o ex-colega para conversar e disse que não aceitaria aquela situação. Em retaliação, ele manchou a sua imagem e fez com que ela perdesse a vaga. “Ele falou que eu era louca, desequilibrada, que meu trabalho era questionável e eu não era uma boa repórter, tudo porque eu não quis fazer sexo com ele”.

Silvia Medeiros* trabalhou em um importante grupo de comunicação do Rio Grande do Sul quando foi assediada por um colega fotógrafo. Eram gracinhas dentro da redação, até que ele descobriu o seu endereço. “Ele ficava circulando ao redor da minha casa para tentar me dar uma carona, sendo que eu sabia que ele não morava ali por perto”, explica. Ela sempre recusou, mas ficava assustada com a atitude insistente.

Silvia conseguiu provas para denunciá-lo quando o fotógrafo enviou mensagens para ela tecendo comentários sobre seu corpo. Ela levou o ocorrido ao superior do colega, que a informou que formalizaria a reclamação. Mesmo assim, ele não apenas permaneceu no emprego, mas ainda foi escalado junto com ela para cobrir outros eventos posteriormente.

Maria Fernandes* ainda se emociona ao contar a sua história. Depois de se envolver brevemente com um colega de trabalho, passou a sofrer perseguição de um grupo de superiores. “Quando terminamos, ele ficou com uma das coordenadoras. Depois disso, começaram a implicar com a minha aparência. Por eu não usar sapatilha ou salto alto, diziam que eu era desanimada e não queria estar ali”, diz.

Ela compreendeu o motivo da mudança de atitude quando notou que era vigiada pelas colegas. “Parecia que tinha sempre uma delas junto comigo. Elas se revezavam para que eu nunca ficasse sozinha com ele em qualquer lugar”.

Maria lembra que a situação começou a afetar sua vontade de trabalhar e a sua relação com colegas, até mesmo com aqueles que não estavam envolvidos. Como ela trabalhava como Pessoa Jurídica e não era formalmente contratada pela empresa, sabia que seria mandada embora caso denunciasse. Então, restou-lhe procurar outro emprego.

Fora da redação

Não apenas colegas e superiores são os autores dos assédios. Gabriela Farias*, que trabalha em um grande portal do Rio de Janeiro, acredita que a maioria vem de fontes. “É surreal. Parece que a gente está na prateleira”, relata. “Você termina a entrevista e já vem um ‘você é solteira?’ ou então um convite no Facebook ou no Instagram com mensagens”. Jornalistas que trabalham com web usam muito as redes sociais pessoais para fazer contato com as fontes, o que facilita o contato para os assediadores.

As redes sociais também são um meio em que os assédios do público são bastante perceptíveis, principalmente para as jornalistas que trabalham com vídeo e estão mais expostas. Paula Andrade*, repórter de uma grande emissora de São Paulo, relata que grande parte dos comentários que recebe nada têm a ver com o conteúdo de suas matérias. “Eu recebo mensagens do tipo: ‘gata’, ‘gostosa’ e ‘nossa, tá maravilhosa hoje na TV’. Me incomodo muito com isso, pois não têm relação com a qualidade das minhas reportagens, mas com beleza”.

Impunidade e consequências

Das mais de dez mulheres entrevistadas para esta reportagem, apenas duas fizeram denúncias formais aos veículos onde trabalhavam. No caso de Silvia, o assediador recebeu apenas uma advertência; no outro, nada aconteceu.

Entre os motivos para não denunciar por parte das jornalistas foram citados o receio de perder o emprego, a certeza da impunidade e o medo do assediador.

Para muitas destas mulheres, o assédio resultou ou agravou problemas como ansiedade e depressão. Maria conta que, por muito tempo, se culpou pela perseguição que sofria e acreditava estar fazendo algo errado. Só durante o tratamento com sua psicóloga que ela percebeu que estava em uma situação de assédio moral.

Já Silvia precisou ser internada por conta de depressão após o seu caso de assédio. “Quando eu voltei, a minha saúde mental não estava em alta conta com a diretoria”, lembra. Isso fez com que ela ficasse marcada como “desequilibrada” quando passou por uma nova situação, dessa vez de cunho moral, em que foi humilhada em público por um outro editor.

Para várias destas jornalistas, não há uma forma clara de evitar que este tipo de situação continue a acontecer. Campanhas internas, workshops e seminários não parecem efetivos enquanto não houver uma consequência real para os assediadores e a certeza de que as vítimas estarão protegidas de retaliações.

*Os nomes marcados com asterisco foram trocados para proteger as identidades das entrevistadas.

Por: Carolina Bernardi

Carolina tem 27 anos, é natural de Porto Alegre e residente de Florianópolis. Estudou Design de Moda no Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) antes de mudar para o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha como freelancer em Gestão de Conteúdo e Marketing Digital (manda jobs). Seus hobbies incluem dançar com gatos, jogar The Sims e viajar.

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