Não sou modelo

13 de abril de 2018

As apresentadoras dos principais telejornais do Brasil

Pele branca, corpo magro e cabelos lisos. Essa foi a descrição que mais ouvi ao perguntar sobre o estereótipo da telejornalista. Para compreender quais eram os padrões de beleza ligados ao jornalismo e como eles afetam a vida das profissionais, entrevistei diversas mulheres em diferentes áreas e estágios na carreira.

Para confirmar as afirmações delas, fiz uma análise rápida dos telejornais diários de abrangência nacional que passam na TV aberta. Assistindo a algumas edições em dias da semana aleatórios e pesquisando nos sites das emissoras, conclui que todas as apresentadoras regulares cabiam no estereótipo. São elas: Sandra Annenberg, Renata Vasconcellos (Rede Globo), Rachel Sheherazade, Karyn Bravo, Analice Nicolau (SBT), Paloma Tocci (Bandeirantes) e Adriana Araújo (Record).

As exceções são as âncoras eventuais do Jornal Hoje, da Globo, Maria Júlia Coutinho e Zileide Silva, ambas negras.

A predominância de mulheres brancas vai de encontro aos resultados da pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, conduzida pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em que 72% dos jornalistas se declaram brancos, enquanto 18% se dizem pardos e apenas 5% se entendem como negros.

Os números são desproporcionais à composição étnica do Brasil, que, segundo o último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 47,5% de brancos, 43,4% de pardos e 7,5% de pretos.

O afastamento das mulheres negras do telejornalismos começa na faculdade. Diversas entrevistadas contaram sobre como seus professores exigiam determinado padrão dentro de sala de aula, principalmente quanto aos cabelos.

Joana*, graduanda em Jornalismo na Universidade de Fortaleza (Unifor), conta que seu professor de TV avisou ao final da disciplina, em um exercício de passagem, que “quem tivesse o cabelo cacheado teria que alisar e quem tivesse o cabelo volumoso teria que prender”.

Mas a imposição não se restringe à sala de aula: de acordo com ela, as jornalistas que trabalham na TV universitária recebem vale-escova, um “benefício” que não é oferecido aos homens.

Muitas das entrevistadas notam o tempo gasto diariamente pelas telejornalistas em função da aparência. Fernanda Bastos, apresentadora da TVE, não usa muita maquiagem por ter alergia, mas percebe que as colegas têm que gastar uma boa parte do dia delas para começar a trabalhar maquiadas. “É uma coisa que eu nunca vi os meus colegas homens fazerem”, pondera.

Fernanda acrescenta que eles dificilmente passam pó compacto – que evita que o rosto brilhe no vídeo – e têm liberdade para usar barba. Já as mulheres que querem usar o cabelo natural são vistas como ousadas e sofrem censura.

Uma questão de peso

É possível contar nos dedos de uma mão o número de mulheres telejornalistas que podem ser consideradas não-magras. O porte físico de quase todas – das repórteres às apresentadoras – é muito parecido. E isso também é estimulado antes mesmo do fim da graduação.

Paula*, que atualmente trabalha na Record, conta que a pressão para perder peso começou quando ainda trabalhava na TV da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Você acredita que quando eu tinha 20 anos de idade a minha chefe pediu para eu emagrecer?”, conta ela. “E para um homem eu nunca vi essa exigência tão absurda”.

O problema é que Paula cabe perfeitamente no estereótipo da telejornalista. Nem estar dentro dos padrões a salva de críticas dos superiores. “Uma vez me falaram que o meu quadril ficava grande demais no vídeo, então tive que emagrecer, como se eu fosse uma modelo. Só que o meu trabalho não tem nada a ver com isso”, lembra.

Quebrando o padrão

Depois de todos os depoimentos que ouvi sobre padrão estético, é fácil concluir que a imposição não começa no mercado de trabalho, mas logo nos primeiros semestres da faculdade. Professores que parecem não estar conectados com a atualidade e seguem cartilhas de determinadas emissoras acabam por moldar algumas alunas dentro de um perfil ou tolher a vontade de outras que não querem se enquadrar.

No entanto, há quem acredite que as mudanças, apesar de lentas, acontecem. Paula, por exemplo, percebe que jornalistas de diferentes etnias começam a se destacar.

Uma mudança que deve ser observada é na demografia étnica dentro do campo do jornalismo. Com o crescimento do sistema de cotas socioeconômicas e raciais nas universidades públicas, mais jornalistas negros e indígenas devem se formar nos próximos anos e buscar espaço no mercado de trabalho.

Levando em consideração o crescimento de movimentos que buscam a aceitação dos cabelos e dos corpos naturais, é mesmo improvável que o padrão se mantenha.

*Os nomes marcados com asterisco foram trocados para proteger as identidades das entrevistadas.

Por: Carolina Bernardi

Carolina tem 27 anos, é natural de Porto Alegre e residente de Florianópolis. Estudou Design de Moda no Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) antes de mudar para o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha como freelancer em Gestão de Conteúdo e Marketing Digital (manda jobs). Seus hobbies incluem dançar com gatos, jogar The Sims e viajar.

2 Comentários
  • Lu
    13 de abril de 2018

    Parabéns pela matéria. Ser bom profissional não está relacionado com cor da pele, tipo de cabelo ou estética corporal.

  • Vânia Sponchiado
    13 de abril de 2018

    Parabéns Carol! Otimo trabalho , muito de acordo com os novos tempos que já comecaram. Fora de vez com a ditadura dospadrões de corpos perfeitos e outras características que a maioria de nós brasileiras está longe de apresentar.

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