Notícia de homem e de mulher

1 de junho de 2018

Victória Rodrigues é atleta e redatora

Os conteúdos jornalísticos são divididos de acordo com a relevância que têm: costumamos chamar de hard news as notícias mais impactantes e de soft news as matérias pouco importantes. Nessa dinâmica, as editorias capazes de produzir mais materiais do primeiro tipo são valorizadas dentro dos veículos e garantem o prestígio de seus profissionais.

A pesquisadora Márcia Veiga da Silva notou que essas classificações coincidem com a distribuição de jornalistas homens e mulheres por editorias. Basicamente, eles têm a oportunidade de cobrir assuntos considerados essenciais (política, economia e polícia) e elas ficam com temas taxados de superficiais (cultura, bem-estar e comportamento).

O estudo Mulheres no Jornalismo Brasileiro, conduzido pela Gênero e Número e pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), confirma essa divisão sexual do trabalho. Das 477 mulheres jornalistas consultadas, apenas 13% trabalham na editoria de política/país, 8,4% com economia e 1% em segurança/polícia.

Por outro lado, a pesquisa também revela que a quantidade de mulheres em posições de poder em algumas dessas editorias desafia os estereótipos de gênero. É o caso de política/país, onde há equilíbrio na quantidade de profissionais que atuam como editores, e economia, em que elas predominam sem qualquer tipo de dificuldade.

Outro ponto que o estudo evidenciou é que a presença de mulheres jornalistas em editorias que abordam assuntos que são tradicionalmente atribuídos ao universo masculino é pequena, como esportes (4,6%) e tecnologia (0,6%). Coincidentemente, embora pertençam ao campo das soft news, ambas dificilmente são questionadas ou ridicularizadas.

As poucas profissionais que conseguem entrar nessas editorias precisam enfrentar uma série de problemas para que seus trabalhos sejam minimamente respeitados. No cotidiano, chefes, colegas, fontes, entusiastas e leitores criam obstáculos que elas precisam ultrapassar para provar que têm capacidade de ocupar as vagas que conquistaram.

Espaços masculinos

Conseguir vagas em editorias tipicamente masculinas não é fácil para mulheres jornalistas. Victória Rodrigues, que é redatora do Torcedores.com, um portal de esportes e games, acredita que, em muitos casos, elas são tratadas como segunda opção. “Se tiver um homem na jogada, você pode até entender mais, mas é provável que ele seja chamado para trabalhar”, explica.

Caso essas profissionais consigam entrar para as editorias desejadas, as relações com chefes e colegas tendem a ser difíceis. O problema mais comum é o questionamento sobre a competência para assumir determinadas pautas. “Uma vez um profissional que tinha um cargo superior ao meu questionou o que eu ‘dava’ para conseguir minhas informações”, conta Bárbara Franco, que trabalhou na editoria de polícia de um dos maiores jornais de Pernambuco.

No entanto, as principais dificuldades aparecem durante o contato com as fontes. Em espaços predominantemente ocupados por homens, como assembleias legislativas, delegacias de polícia e estádios de futebol, as mulheres jornalistas precisam desenvolver estratégias para criar laços estreitos com possíveis entrevistados e, ao mesmo tempo, evitar assédios.

Risa Stoider escrevia sobre games e hardwares para um portal de tecnologia

O jornalismo esportivo pode se mostrar especialmente hostil para as mulheres. É que, em eventos desse tipo, também existem os torcedores, que estão em um espaço de socialização masculina e parecem levar suas paixões muito a sério. Inclusive, não são raros os casos de repórteres que são ironizadas, humilhadas ou assediadas por eles.

Mesmo que uma mulher passe por todas essas etapas produtivas sem grandes contratempos, ainda existe a possibilidade dela ter problemas com os leitores. Isso é particularmente comum em editorias como esportes e tecnologia. “Tinha quem partisse direto para coisas como ‘volta para a cozinha’, o que, é claro, ninguém falava para os meus colegas”, relata a jornalista Risa Stoider, que trabalhava em um portal de games e hardwares.

Em editorias predominantemente masculinas, a aparência da mulher jornalista também é fonte de dificuldades: as que seguem os estereótipos de gênero ligados ao feminino são assediadas e as que procuram evitá-los são questionadas. Essas situações podem se multiplicar, caso a rotina profissional envolva aparecer em vídeos, seja na televisão ou na internet.

Lugares velhos e novos

Muitos desses problemas não são enfrentados apenas por mulheres jornalistas. Outras áreas do mercado de trabalho também impõem obstáculos semelhantes às suas profissionais e, no limite, todos elas são reflexos da própria sociedade. Então, o que fazer para tornar esses espaços majoritariamente ocupados por homens mais acessíveis?

Marinna Protasiewytch é jornalista esportiva e atua em vários veículos

Marinna Protasiewytch, que é apresentadora da TV Transamérica e repórter da webrádio Força Jovem, crê no poder de campanhas para acelerar mudanças estruturais. Um exemplo disso seria o movimento #DeixaElaTrabalhar, criado por 52 mulheres que trabalham com jornalismo esportivo para combater o machismo que sofrem em redações, estádios e redes sociais.

Cultivar o interesse pela editoria em questão também é de extrema importância. No dia a dia, isso implica em estudar para discutir os principais assuntos com propriedade, continuar em busca de oportunidades mesmo depois de recusas em entrevistas de emprego e tentar se manter preparada para as adversidades que podem surgir.

Esses comportamentos ajudam a tornar as editorias mais acessíveis para outras profissionais. Bárbara, por exemplo, se sentia mais confiante em fazer seu trabalho apenas por ter chefes e colegas mulheres. “Especialmente no início da carreira, conviver com elas me fazia acreditar que eu podia estar ali, mesmo quando isso parecia estranho aos olhos masculinos”, diz.

Pamella Scramin percebeu que o empreendedorismo pode ser um caminho para aquelas que desejam trabalhar em editorias consideradas masculinas. Antes de criar o Minuto Tech, ela tentou conseguir vagas de estágio nos principais portais de tecnologia do país, sem sucesso. Atualmente, seu site emprega sete pessoas, sendo que a maioria é composta por mulheres repórteres.

Marianna Mello, editora de um site sobre cultura nerd e histórias em quadrinhos, lembra da importância de apoiar iniciativas criadas por outras mulheres. “Infelizmente, se ficarmos esperando uma vaga surgir naquele veículo que sempre foi e, provavelmente, sempre será de domínio masculino, não chegaremos a lugar nenhum. A ideia geral é: se não nos dão espaço, nós construímos o nosso”, conclui.

Fotos: Acervo pessoal

Por: Kamylla Silva

Kamylla tem 28 anos e mora em Florianópolis. É formada em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), onde teve seu primeiro contato com os estudos de gênero. Atualmente, é graduanda de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha com Marketing Digital, elaborando e aplicando estratégias de conteúdo para clientes de todo o Brasil. Gosta de escrever, viajar e brincar com seus gatos.

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