Sobre ser mãe e jornalista

11 de maio de 2018

Giovanna Balogh e os filhos. Foto: Acervo pessoal

“Não aconselho a maternidade para quem almeja ser uma jornalista de sucesso”, afirma Arielce Haine. “Não digo, com isso, que uma jornalista não possa ser mãe. Acredito que sim. Mas que ela saiba que as suas oportunidades e chances serão menores do que as de uma colega que não tenha filhos”.

O sentimento de Arielce reflete o de diversas outras mães jornalistas. Os horários incertos, a necessidade de viajar e a disponibilidade esperada para cobrir pautas que podem chegar a qualquer momento tornam a vida de uma repórter sem rotina, algo essencial para quem tem filhos, como conta Juliana Motta:

É possível fazer uma associação entre a maternidade e o abandono da profissão, ainda mais considerando que 68,8% dos jornalistas que atuam fora da mídia são mulheres, de acordo com a pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro, conduzida pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Para Arielce, a saída do jornalismo não foi uma escolha própria. Ela tinha dois empregos: na Assessoria de Imprensa da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e em um jornal de Brasília. Sua gravidez não foi planejada, mas ela informou ao veículo quando soube. Ela logo sentiu a mudança de tratamento na redação. “Era como se eles achassem que não poderiam contar mais comigo dali a um tempo e passaram a antecipar a minha falta”, conta.

A gravidez foi de risco e ela teve que ficar internada aos seis meses. Apesar das afirmativas do jornal de que contornaria a situação, Arielce recebeu um grande desconto em seu salário e foi demitida no mês seguinte, sem aviso prévio. Com o testemunho de colegas, conseguiu uma pequena indenização e acabou por seguir carreira em assessoria de imprensa.

Ela lembra que as jornalistas mães eram vistas como um problema pelos patrões pela necessidade de faltar de vez em quando por conta dos filhos. Uma situação pela qual a jornalista Giovanna Balogh passou quando seu filho tinha apenas cinco meses e que acabou em assédio moral de um chefe quando trabalhava como editora em um jornal de um grande grupo de comunicação de São Paulo:

Para Giovanna, a situação foi decisiva para querer sair do emprego. Ela só não o fez imediatamente por motivos financeiros. Mesmo assim, negociou uma transferência para outro jornal do mesmo grupo, onde teve uma perda salarial significativa por conta da mudança de cargo. A diminuição no salário valeu a pena, segundo ela, pois ganhou em qualidade de vida por sofrer menos assédios.

Amamentação

A falta de rotina é um fator que afeta as mães jornalistas e atrapalha uma parte importante dos primeiros meses de vida do bebê: a amamentação. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê que empresas com mais de 30 funcionárias devem ter um local para as crianças nesse período ou oferecer creche por meio de convênio.

As empresas pequenas, no entanto, ficam desobrigadas e as funcionárias que trabalham como Pessoas Jurídicas não têm resguardados os direitos de proteção à maternidade, como o de não ser demitida por causa da gravidez, a licença-maternidade e os períodos de descanso para amamentação.

Esses períodos de descanso são recentes – previstos por uma lei de 2017 –, então as entrevistadas não puderam usufruir desse direito. Juliana Motta, que trabalhava em uma filial de um grande grupo de comunicação do Rio Grande do Sul, conta que, depois de voltar da licença-maternidade, trabalhava oito horas seguidas e não conseguia fazer intervalos para ir até a creche de sua filha amamentar.

Outra dificuldade foi encontrada por Giovanna. No período de lactação, além de amamentar, as mulheres também precisam fazer a coleta do leite. Ela conta que pediu diversas vezes ao setor de Recursos Humanos da empresa onde trabalhava que cedesse um espaço para isso, mas teve os pedidos negados.

Sem apoio

Mesmo a gravidez sendo planejada, as mães não têm como saber como será a reação no ambiente de trabalho. O que muitas percebem é falta de apoio de chefes e colegas, incluindo outras mulheres. A necessidade de sair em licença-maternidade, para amamentar ou cuidar dos filhos quando ficam doentes é muitas vezes vista como “folga”, “preguiça” ou “falta de vontade”.

Anna Martino, que trabalhou por vários anos na parte de comidas e bebidas de um grande portal de notícias online, conta que é esperado que a jornalista fique na redação até tarde e dedique a sua vida à profissão, o que não é possível quando se tem filhos.

Toda essa cultura faz com que as jornalistas mães sejam, por vezes, vistas como menos capazes. Giovanna lembra que, quando voltou da licença-maternidade, o editor-geral do jornal colocou um sub-editor para revisar tudo que ela fazia – algo que nunca havia acontecido antes.

Saindo da redação

Juliana Motta e sua filha durante entrevista

A falta de rotina e os horários complicados da TV levaram Juliana Motta a seguir a vida acadêmica. Ela fazia mestrado e trabalhava durante sua gravidez; após voltar de licença-maternidade, aguentou o ritmo por um mês antes de optar por seguir apenas na pós-graduação. Para ela foi uma questão de qualidade de vida, pois a bolsa que recebia era quase do mesmo valor do seu salário, mas com muito mais tempo para ficar com sua filha e se dedicar aos estudos.

Atualmente, ela faz doutorado e se considera muito mais feliz do que quando trabalhava em redação. Não foi uma decisão fácil, mas Juliana a tomou com a consciência de que muito provavelmente não conseguirá voltar para a TV no futuro.

Anna foi demitida no início desse ano e, para ela, foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Ela sentia que não conseguia prestar tanta atenção quanto deveria em seu filho, então foi um momento de redefinição de prioridades. Hoje, ela trabalha como escritora e editora, tendo mais tempo para acompanha-lo.

Ser editora de um grande jornal pelo resto de sua carreira era o sonho de Giovanna. No entanto, ela não sente que existe mais lugar para ela em uma redação. “Você pode olhar, a maioria dos cargos de chefia nas redações são de homens. Para as mulheres sobra ganhar o piso. Prefiro ficar em casa sendo dona do meu próprio horário e fazendo meus freelas, que eu ganho até mais”.

Além de trabalhar como freelancer, ela é dona do site Mães de Peito, que traz reportagens sobre gestação e maternidade, além de prestar consultorias sobre gravidez, parto e aleitamento.

Por: Carolina Bernardi

Carolina tem 27 anos, é natural de Porto Alegre e residente de Florianópolis. Estudou Design de Moda no Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) antes de mudar para o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trabalha como freelancer em Gestão de Conteúdo e Marketing Digital (manda jobs). Seus hobbies incluem dançar com gatos, jogar The Sims e viajar.

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